Falido, clube do povão cai no colo da esquerda 
Terça, 30 de Setembro de 2008, 08:36 AM
Por José Neves Cabral

Texto publicado na Revista Algomais deste mês

>>Clube marcado por suas fortes ligações com a política, o Santa Cruz vai experimentar nos próximos dois anos uma gestão de esquerda, mais precisamente a partir do dia 7 de outubro quando o secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Fernando Bezerra Coelho, 50 anos, assumir a presidência executiva. Ex-prefeito de Petrolina e um dos quadros mais fortes do Partido Socialista Brasileiro no Estado, ele promete dar um choque de gestão no Arruda, para fazer o Santa Cruz voltar aos seus grandes dias. Sua missão, porém, não é das mais fáceis, pois o clube está afundado em dívidas de toda ordem, montante estimado em R$ 60 milhões, além do atraso de mais de um ano na folha dos funcionários. E tem um débito moral gigantesco com a sua torcida - ganhou apenas quatro títulos nos últimos 20 anos (1990, 93, 95 e 2005).

Fernando Bezerra Coelho já vinha acompanhando a distância o dia-a-dia do clube. Com a eliminação precoce na segunda fase da competição, o presidente Edson Nogueira, pressionado, jogou a toalha e convocou o Conselho Deliberativo a antecipar as eleições previstas para dezembro. Vários grupos lançaram candidatos, mas numa manobra política surpreendente Bezerra Coelho transformou-se no preferido da maioria. Nas entrevistas, rejeitou o adjetivo de "Salvador da Pátria" e lembrou que a recuperação do Santa exigirá estratégias para atrair recursos e muita calma para tomar decisões.

Sua candidatura começou a ser articulada pelos conselheiros André Gink, Henrique Figueira e Tonico Araújo, ex-vice-presidente executivo na gestão de José Mendonça, em 2000/01. Ele mostrou-se interessado em assumir a candidatura, mas pediu um tempo, pois queria consultar o governador Eduardo Campos.

Em princípio, imaginou-se que haveria uma disputa político-partidária no Arruda, uma vez que boa parte dos dirigentes que comandou o clube em décadas passadas vinha da Arena, posteriormente PFL e agora DEM. Mas não foi o que se deu. O deputado André de Paula, cuja família sempre teve forte influência nas Repúblicas Independentes do Arruda, por intermédio de seu pai, André de Paula, encontrou-se com o governador no sepultamento do ex-prefeito do Recife Pelópidas Silveira e não perdeu a oportunidade de fazer o pedido para que Campos liberasse Bezerra Coelho. O governador não se opôs e ainda classificou como extraordinária a idéia de Bezerra Coelho em convidar o principal líder do DEM no Estado, o senador Marco Maciel para compor sua chapa como presidente do Conselho Deliberativo. Até o fechamento desta edição, porém, o ex-governador ainda não havia respondido.

Bezerra Coelho também convocou os líderes de todas as tendências políticas do clube e saiu do encontro com o compromisso de que seria o candidato único no pleito marcado para o dia 30 de setembro. "Na reunião, ele mostrou uma visão de clube bastante convincente, pois demonstrou conhecimento das necessidades do Santa Cruz a curtíssimo prazo, a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo", explica Fernando Veloso, principal líder do movimento de oposição no Arruda.

"As questões políticas foram isoladas da questões clubísticas. Neste momento, nossa luta é por união para fortalecer o clube", completa o ex-presidente João Caixero. "Se os grupelhos ficarem afastados do poder, o Santa Cruz voltará aos grandes dias", diz o vereador do PMDB Liberato Costa Júnior, um dos 25 conselheiros perpétuos do clube. "Não importa de qual partido seja o presidente, o importante é acabar com os grupelhos, pois ficam brigando por espaço e esquecem o clube", alerta.

E faz parte da tradição do Santa Cruz a presença de políticos na direção. Na década de 60, o ex-prefeito do Recife José do Rêgo Maciel foi presidente do clube e acabou emprestando seu nome ao estádio. Seu filho, o senador Marco Maciel, também marcou presença em vários momentos na história do clube e em 1987 não se esquivou de agir para que a Confederação Brasileira de Futebol incluísse o Santa entre as equipes que participariam da Copa União, que deu origem ao Clube dos 13. Antes deles, o deputado Odívio Duarte dirigiu o clube na conquista do primeiro supercampeonato, em 1957 (veja quadro ao lado).

Como governador, Maciel também deu importante apoio à obra de ampliação do Arruda no início dos anos 80, quando o Bandepe, privatizado pelo Estado nos anos 90, emprestou dinheiro para a construção do anel superior e recebeu em troca como garantia de pagamento cadeiras cativas que seriam vendidas - o débito nunca foi totalmente pago.

A crise do Santa se agravou, coincidentemente, a partir dos anos 80 com o processo de redemocratização do País. Sem o afago do Estado e sem um mecenas como James Thorp (um grande acionista da Withe Martins que o presidiu e gastou uma fortuna nos anos 70, época em que o Mais Querido sagrou-se pentacampeão estadual) o clube foi definhando administrativamente até chegar aos dias de quase falência em que vive.

Com a chegada de Bezerra Coelho, o braço esquerdo do Estado, a torcida passa alimentar esperanças em melhores dias. Até porque o secretário de Desenvolvimento Econômico tem pretensões políticas ambiciosas e é cotado pelos analistas políticos como um futuro candidato ao Senado ou provável sucessor de Eduardo Campos no Palácio do Campo das Princesas.

Além de tentar tirar o clube do buraco, o maior desafio de Bezerra Coelho é fazer o que todos os presidentes que dirigiram o clube nos últimos anos não conseguiram: implantar um projeto para que o Santa Cruz consiga atingir a sustentabilidade sem as intervenções políticas, que podem até trazer êxitos pontuais, mas não consolidam a agremiação administrativamente.


Os políticos e o Santa Cruz

Odívio Duarte - deputado (UDN) - presidente executivo em 1957/58

José do Rêgo Maciel (ex-prefeito do Recife Partido Social
Brasileiro) - presidente executivo 1965/66

Aristófanes de Andrade (vereador pela Arena) - presidente em vários mandatos

Vanildo Ayres (deputado pelo PMDB) - presidente em 1983

José Neves Filho (vereador pelo PDT e agora PSDB) - presidente em três mandatos

José Mendonça (deputado federal pelo PFL) - presidente em 2000/01

Antônio Luiz Neto (vereador pelo PTB) - presidente do Conselho Deliberativo em 2001/02

Ribeiro Godói (deputado estadual pela Arena) - diretor de futebol

Zezé Fernandes (ex-deputado e ex-prefeito de Gravatá pelo MDB) - diretor de futebol na década de 60

André de Paula (deputado federal pelo DEM) - membro do Conselho Deliberativo


2 comentários ( ( 26 vistas ) )   |  permalink   |  links relacionados

Bolas rasteiras 
Segunda, 29 de Setembro de 2008, 07:41 AM
BOM EMPATE - Poderia ser melhor, mas o empate do Náutico com o Palmeiras, por 0x0, nos Aflitos, ficou de bom tamanho.

O time pernambucano permanece fora da zona de rebaixamento e o líder Palmeiras não deu a mordida que queria dar no Timbu.

TOALHA NO CHÃO - O técnico Nelsinho já reconhece que não dá mais para o Sport sonhar com o título brasileiro. Agora é pensar em terminar com dignidade o torneio nacional e se preparar para a próxima tempora, que inclui Estadual e Libertadores da América.

ERRO CRASSO - Embora tenha crédito de sobra com a torcida e a diretoria do Sport, Nelsinho precisa fazer uma reflexão a respeito das substituições que costuma fazer. Colocar Fumagalli, que está voltando de uma contusão após dois meses parado, naquele gramado pesadíssimo do Maracanã foi demais.

SÓ A RIVALIDADE EXPLICA - O Grêmio tem a defesa menos vazada do Brasileiro, 20 gols. Antes do clássico com o Inter só havia sofrido 16. Só a rivalidade explica a goleada do colorado sobre o tricolor no clássico gaúcho.

CIUMEIRA - O ex-presidente Romerito Jatobá conseguiu emplacar 25 indicações para o Conselho Deliberativo na gestão Fernando Bezerra Coelho. Teve ex-presidente que indicou dez nomes e emplacou apenas um. A ciumeira rola solta no Arruda.

Uma lição para Nelsinho 
Domingo, 28 de Setembro de 2008, 06:11 AM
No jogo de xadrez do futebol, um movimento errado é fatal. E o técnico Nelsinho, do Sport, cometeu três.

Por isso, acabou derrotado pelo Flamengo, no Maracanã.

O primeiro tempo acabou empatado com Roger e Enilton, a dupla de ataque pernambucana, preocupando constantemente a defesa adversária.

O Flamento foi para cima do Sport no início da partida, mas esbarrou na sólida marcação rubro-negra.

No segundo tempo, Roger, de cabeça, abriu o placar e a vitória parecia tranqüila até que Nelsinho cometeu o seu primeiro erro.

Sacou kássio, que preocupava bastante a defesa adversária, para colocar o volante Fábio Gomes.

Minutos depois, colocou Luciano Henrique e Fumagalli nos lugares de Enilton e Roger. Os dois jogadores que entraram não têm a pegada dos que saíram. Os laterais do Flamengo avançaram. Carlinhos Bala e Dutra ficaram sobrecarregados e os gols flamenguistas acabaram saindo em jogadas pelas laterais.

Uma lição para Nelsinho.

Os quatro fabulosos que nasceram na semana mais fértil do futebol 
Sábado, 27 de Setembro de 2008, 10:07 AM


Simon Kuper, do Financial Times

Em 22 de setembro de 1976, um grande jogador de futebol nasceu no Rio. "Você sabe de onde veio o nome Ronaldo?" seu pai perguntou ao escritor Frans Oosterwijk anos depois. "Do médico que fechou as trompas da mãe após o nascimento dele. Há, há. Doutor Ronaldo, era o nome dele."

Este nascimento deu início à semana mais fértil da história do futebol. Quatro dias depois de Ronaldo, o pequeno Michael Ballack nasceu em Görlitz, na República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), seguido por Francesco Totti, em Roma, em 27 de setembro, e o quarteto é completado quando Andriy Shevchenko nasceu na aldeia ucraniana de Dvirkivschyna, em 29 de setembro.

Provavelmente havia algo na água naquela estação. Em 1º de julho de 1976, Ruud van Nistelrooy e Patrick Kluivert nasceram na Holanda. Seja qual for o segredo, à medida que o quarteto completa 32 anos e se aproxima da linha de chegada, é uma chance de esboçar uma espécie de carreira do astro moderno do futebol.

O primeiro ponto a despontar é que a origem pouco importa. No futebol moderno, é irrelevante ter vindo de uma aldeia evacuada após o desastre de Chernobyl (Shevchenko), de uma família romana tão tradicional que sua mãe sempre passava o uniforme de futebol (Totti), ou de Dr Salvador-Allende-Strasse, 168, Karl-Marx-Stadt, Alemanha Oriental (Ballack).

Todos os quatro cresceram sonhando com a grandeza. Totti inicialmente queria ser frentista de posto de gasolina, Ronaldo queria ser cantor, Shevchenko lutava boxe e Ballack foi identificado pelo governo da Alemanha Oriental como um futuro patinador de velocidade. Apenas Ronaldo foi um adolescente prodígio: aos 17 anos, ele já estava sentado no banco de reservas da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1994, segundo dizem tremendo de medo de ser chamado para entrar em campo. A primeira coisa que comprou com sua nova riqueza foi um aparelho ortodôntico. Seus dentes "de coelho" atormentaram sua juventude.

Os outros três chegaram depois. Nenhum esteve presente no Mundial Sub-20 de 1995. Nunca mais se teve notícia do destaque do torneio, o brasileiro Caio.

Ballack foi quem levou mais tempo para se tornar um astro. Aos 22 anos, ele ainda não jogava regularmente na Bundesliga alemã. Seu período mais longo no anonimato pode ser o motivo para ser o único no quarteto a não ter se casado com uma modelo ou artista. Em vez disso, ele conheceu uma garçonete bonita no Café Am Markt, em Kaiserslautern. Enquanto isso, Ronaldo alternava entre uma legião de loiras, conhecidas coletivamente como Ronaldinhas.

Esta é a primeira geração de jogadores de futebol globalizados. Apesar dos primeiros jogadores ex-soviéticos a se mudarem para o Ocidente terem fracassado, Shevchenko trocou o Dínamo de Kiev pelo Milan e se adaptou instantaneamente. Ele apenas se mudou de um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum não tinha nada, para um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum anda vestido em Armani. Ele se casou com uma modelo americana.

Todos os quatro deram nomes cosmopolitas para seus filhos. Shevchenko batizou um filho de Jordan, em homenagem a Michael Jordan; os meninos de Ballack são Louis, Emilio e Jordi; e o filho de Ronaldo se chama Ronald, porque o jogador e sua esposa na época gostavam de comer no McDonald's. Até mesmo Totti, o eterno romano, deu o nome de Chanel a sua filha.

Com vinte e tanto anos, estes jogadores viviam uma sucessão de grandes momentos - apesar de Ballack não ter conseguido grandes conquistas. O tempo no topo se move rápido demais para permitir muito tempo para saborear. Em Yokohama, em 2002, nem uma hora depois de Ronaldo ter marcado dois gols na conquista da Copa do Mundo, um jornalista brasileiro lhe disse: "Nós não estamos interessados no passado, só no futuro". Ronaldo desejava conquistar o ouro olímpico? E quanto à próxima Copa do Mundo?

"Agora eu não quero sentir qualquer pressão a respeito do futuro", Ronaldo respondeu ao seu modo sereno. "Eu só quero comemorar." Ele finalmente tinha aprendido uma habilidade essencial para a vida no topo: dizer não.

Todos esses jogadores desenvolveram uma forma de lidar com o estresse. Totti permaneceu para sempre no Roma, onde é amado mesmo quando não joga toda semana. Shevchenko acabou de voltar ao Milan, o melhor clube para paparicar jogadores. Ronaldo priorizou as Copas do Mundo, freqüentemente ficando meses fora do clube de futebol. E quando Ballack chegou ao topo, ele já era maduro o suficiente para lidar com a pressão.

Nós agora podemos traçar o pico de cada um deles. O de Ronaldo foi em 2002; o de Shevchenko foi em 2004, quando foi eleito jogador europeu do ano; o de Totti foi 2006, quando conquistou a Copa do Mundo; enquanto Ballack quase conquistou tudo neste ano. Isso mostra que quanto mais à frente se joga, mais dependente o jogador se torna da aceleração e mais cedo é o seu pico. Ballack, o único meio-campista real do quarteto, é aquele que mais dura.

A jornada termina prematuramente. Gradualmente, as lesões cobram seu preço cumulativo. Totti e Ballack estão tendo dificuldade para retomar a forma. Shevchenko espera marcar seu primeiro gol nesta temporada antes de seu aniversário. Ronaldo está se recuperando em uma praia do Rio de outra lesão terrível no joelho, mas ainda não consegue dizer adeus: "Eu sinto tamanha paixão pelo futebol que estou pronto a fazer qualquer sacrifício para voltar". Ele insinua jogar no Manchester City.

Mas ele foi recentemente fotografado pela revista "Veja" em um iate, barrigudo, fumando e bebendo cerveja. De uma forma ou de outra, é assim que termina.


Passes curtos 
Sexta, 26 de Setembro de 2008, 07:53 AM

PÉS NO CHÃO - Fernando Bezerra Coelho, o candidato único à presidência do Santa Cruz, declara nos jornais de hoje que anda assustado com a falta de transparência nas contas tricolores. Ampliou o prazo da auditoria para tentar identificar os credores. Para o Santa ser devedor é preciso que os credores apareçam.

PARTINDO CEDO - A diretoria do Sport já iniciou o trabalho para manter a base do time ano que vem, renovando o contrato do zagueiro Igor. É a medida mais certa.

JOGO DURO - O jogo do Sport com o Flamengo é difícil, mas a pedreira que o Náutico vai pegar nos Aflitos, contra o Palmeiras, é maior ainda. O time de Luxemburgo está com sede de títulos e a apenas um ponto do líder Grêmio. Um tropeço nos Aflitos será fatal. Mas tenho certeza que Roberto Fernandes saberá explorar muito bem essa ansiedade palmeirense.

MANCADA DE DUNGA - A desculpa de Dunga para não incluir Ronaldinho Gaúcho na lista dos que vão enfrentar Venezuela e Colômbia cheira a cinismo. E olhe que sou um dos defensores do treinador no comando da seleção. Dizer que não convocou o jogador por ele estar precisando de ritmo é conversa mole. Então porque o chamou para a Olimpíada, quando ele estava bem pior do que está hoje?

É por essa falta de coerência que Dunga está apodrecendo rapidamente na seleção brasileira. Pena que quem assumir depois dele não será muito diferente. Muito pelo contrário.


Anterior Próxima