Domingo, 11 de Março de 2007, 12:46 AM
Por Giba Carvalheira e Sérgio Travassos
Os clássicos de futebol existem em todos os quatro cantos do planeta. Grandes, pequenos, tradicionais, enfim, o que está em jogo, é a rivalidade de dois times que entram em campo e teoricamente “se odeiam”. Por aqui temos o Sport, Náutico e Santa Cruz, que fazem os tradicionais: “Clássico das Multidões”, “Clássico dos Clássicos” e “Clássicos das Emoções”.
Dando um giro pelo mundo, indo especificamente para o continente europeu, num país de tradição no futebol, mas sem resultados expressivos em competições mundiais, a Escócia, temos o que pode ser considerado por desportistas e por atletas um dos maiores e mais antigos clássicos do planeta: Celtics x Rangers! O primeiro jogo entre eles data de 28 de maio de 1888 (quase 120 anos), e teve como placar Celtics 5 x 2 Rangers.
Mas o que teria de tão especial esse clássico, popularmente conhecido como: “The Old Firm” (“A Velha Firma”)? Um pequeno pormenor religioso fez com que esse jogo fosse um dos mais violentos de todos os tempos: católicos versus protestantes!
O Celtics foi fundado por padres católicos, que quiseram homenagear os irlandeses que moravam no leste de Glasgow, e o Rangers foi fundado por protestantes. A primeira vez que o “pau cantou” literalmente foi em 1909, no Hampden Park, num jogo para 60 mil pessoas, onde morreram numa briga 180 pessoas.
A população escocesa inclusive acreditava que os clubes se beneficiavam dessa violência, pelos infindáveis títulos dos dois times, pois, quem torcia por outro time qualquer, quando acontecia o “The Old Firm”, bastava ser católico ou protestante para se posicionar nas determinadas torcidas.
Eles aglutinaram, com isso, milhões de fiéis torcedores e, nos últimos 45 anos, só dois times quebraram a hegemonia dos dois: o Dundee e o Abderteen, que era comandado na época pelo famoso Alex Fergurson, que há 25 anos treina o Manchester United.
Para se ter uma idéia do fanatismo, os torcedores do Celtics (verde e branco) colocam estampada em sua bandeira a imagem do Papa e apóiam o grupo terrorista irlandês: “Ira”! Já os do Rangers (azul e branco), de tradição protestante anglicana, colocam em suas bandeiras o rosto da Rainha da Inglaterra, cantam o hino do Império Britânico e apóiam o grupo terrorista Protestante: “Ulster”! São verdadeiros Hooligans escoceses!
Em 1931, em mais um clássico “The Old Firm”, o goleiro do Rangers teve o seu crânio quebrado por um jogador do Celtics, numa disputa de bola, acirrando ainda mais o ânimo dos torcedores.
Com a profissionalização do futebol, o dinheiro de patrocinadores começou a entrar, e jogadores de outras religiões puderam jogar nos dois times, mas eram considerados “estrangeiros”. Em 1989 o Rangers, tentando acabar com a segregação religiosa, contratou o jogador Mourice “Mo” Johnston, um católico que havia sido artilheiro pelo Celtics. E ele passou a receber ameaças de morte pelas duas torcidas, tendo depois se “exilado” nos Estados Unidos. Em meados da década de 90, isso começou a acabar.
A nível de futebol europeu, o Celtics foi campeão da Copa dos Campeões em 1967, vencendo a Internacionale de Milão por 2x1, vice em 1970, e vice da Copa da UEFA em 2003. O Rangers conquistou a Recopa de 1972, um antigo torneio europeu de grande importância.
Outro detalhe curioso é que a torcida do Rangers usa camisa laranja, como provocação ao adversário, para comemorar a deposição da Monarquia Católica de Guilherme de Orange, em 1688, que era conhecido como “Billy”. Os torcedores do Celtics são conhecidos como os “Billy Boys”.
Números:
Recorde no Celtic Park – 92.000 espectadores (1938)
Recorde no Ibroux Park (Rangers) – 118.567 espectadores (1939)
Rangers – 249 vitórias
Celtics – 192 vitórias
Empates – 137
O que diriam os integrantes da Torcida Jovem, da Inferno Coral e da Fanáutico sobre esse assunto?
Como diz o ditado: “futebol, política e religião não se discute”
Assim seja!
Sexta, 9 de Março de 2007, 07:39 AM
O empate diante do Serrano por 1x1 nessa quinta-feira à noite não deve ter doído tanto na alma tricolor como a perda da antiga sede, arrematada em leilão esta semana para saldar débitos trabalhistas de gestões passadas no Arruda.Aquele prédio situado na Avenida Beberibe, quase de frente à atual sede social do clube, representava bem mais do que sua aparência carcomida pelo tempo.
Era o símbolo da resistência tricolor. Do clube que insiste em sobreviver diante das agruras. Ali, na década de 40, reuniam-se membros da elite pernambucana e do povão, a verdadeira massa tricolor, para respirar o mesmo oxigênio. Democraticamente. E confraternizar após grandes vitórias.
E também a lamentar derrotas, que nunca feriram a dignidade do clube. Afinal, eram derrotas de quem luta. E continua lutando.
Mas, desta vez, não deu. Assisti várias vezes ao advogado Idelfonso Pereira Neto driblar com liminares os leilões marcados para a antiga sede tricolor.
Uma dessas dívidas era com o ex-zagueiro Lula, hoje o bem-sucedido técnico Lula Pereira.
Em 1993, o então presidente José Alexandre Moreira (Mirinda) conseguiu pagar o débito a Lula. Mas havia outras dívidas e a bola de neve foi crescendo, sem que os presidentes que o sucederam tivessem o cuidado de preservar o patrimônio histórico dos tricolores.
Essa perda é um verdadeiro gol contra porque não foi causada pelos adversários e sim pelos próprios dirigentes que juram amor ao clube, mas esqueceram-se de defender o patrimônio da agremiação, entregando-o à própria sorte.
Em tempo: Idelfonso Pereira se foi no ano passado, fulminado por um infarto.
Dispensas: o Santa anunciou hoje pela manhã as dispensas do lateral Moreno e do volante Cleisson.
Quarta, 7 de Março de 2007, 11:55 PM
Era o jogo para o Náutico embalar, mas havia um Porto no meio do caminho. E o mascote do Porto é exatamente um gavião. Ave de rapina, que finge não estar vendo a presa e, de repente, dá o bote.E foi assim, nesta quarta-feira à noite, no Antônio Inácio. O Náutico distraíu-se no início do jogo e levou um gol aos quatro minutos. Dez minutos depois, 2x0, num chute de fora da área de Val, desses que o goleiro vai mas já está batido.
Mas o Náutico queria dar um presente de aniversário a Hélio dos Anjos, 49 anos, e buscou o ataque. Marcel aproveitou passe de Felipe e fez o primeiro dele no jogo.
No segundo tempo, enfim, o uruguaio Acosta entrou no time. Para mim, Hélio mexeu errado. Poderia ter tirado Kuki, que estava mal, e não Christian, um dos melhores do time no primeiro tempo.
Também trocou Luciano por Vágner Rosa. Igual a seis por meia dúzia.
E o Porto deu outro bote. Joelson entrou driblando na área, pedalou em cima de Índio e também driblou Gléguer, que o derrubou. Pênalti. Mais um gol do Porto.
Pouco depois, Acosta, com a velha catimba uruguaia, cavou um pênalti e o juiz foi na onda. Marcel fez o segundo do Náutico e dele. E Walker pegou um rebote e empatou já aos 35. O time da casa teve Val expulso e quando tudo parecia favorável ao Náutico, outro bote da ave de rapina. Eis que surge Pierre e faz o quarto do Porto.
Daí em diante, catimba de um lado e pressão do outro. Marcel fez a jogada mais bonita da partida no finalzinho. Costurou alguns adversários dentro da área e chutou forte, mas o goleiro Marquinhos, um dos melhores do jogo, fez defesa arrojada.
Na Ilha, o Sport voltou a jogar bem (ou será que é o Ypiranga que está muito mal?) e deu uma goleada de 6x0.
A torcida rubro-negra viu Weldon perder quase meia dúzia de gols. Mas também presenciou dois belos tentos de Luciano Henrique e mais um golaço de Bia. Outro chute de fora da área. César, Carlinhos Bala e Anderson completaram a goleada.
O Leão, agora, se prepara para seu jogo mais difícil contra os interioranos. Domingo, tem o Central, no Lacerdão.
A Patativa venceu por 3x1 o Belo Jardim, está motivada e pode ser o fiel da balança neste segundo turno se atrapalhar o Leão.
Hoje, o Santa completa a rodada diante do Serrano, no Arruda. O presidente Edson Nogueira faz uma promoção e mulher não paga.
Esperto, Edinho.
Nesta fase do Santa, desconfio que a promoção é uma forma de fazer os homens irem ao estádio para economizar no programa noturno.
RÁPIDAS
PRECISÃO - Gostei da narração dos gols do Sport, na Globo, feita por Fernando Buarque.
Objetivo e direto. Sem firulas. Aquele abraço, Buarque.
SUPERSTICIOSO - O técnico Gallo vem repetindo o mesmo traje nos jogos desde que chegou à Ilha.
POUCA GENTE - Eram visíveis os vazios no Estádio Antônio Inácio, ontem. Reflexo da goleada que o Porto sofreu diante do Vera Cruz, em casa, no domingo.
EM ALTA - O técnico Peu Santos, ex-jogador de Santa Cruz e Flamengo na década de 80, já está invicto há cinco partidas no Vera Cruz. Quatro vitórias e um empate. O alagoano sempre faz boas campanhas quando dirige equipes interioranas. Lembram do Itacuruba?
MALA-PRETA? - Amigo meu, de Caruaru, ouviu um zumzumzum no estádio, antes do jogo, de que o Sport havia enviado uma mala-preta para motivar os jogadores do Porto. Os meninos correram um bocado. Será?
SELEÇÃO - Dunga anuncia mais uma lista nesta quinta. Torço para que o Fenômeno volte. Gordo ou magro, não temos ninguém melhor do que ele. E se Pato não estiver na lista é uma injustiça.
Segunda, 5 de Março de 2007, 12:11 PM
Aos poucos, o blog arquibancada vai formando seu time. O Mandra Brasa, do amigo Marcus Andrey, oferece doses de humor do tamanho (e peso) de seu autor para os nossos leitores começarem o dia mais alegres. O Estuário, de Samarone, nos traz poesia em forma de crônicas muito bem escritas por esse cearense (agora morador do Cabo) apaixonado pelo Recife.E, nesta manhã, incluímos mais um craque nesse time: o Blog do Juca, de Juca Kfouri, um dos melhores jornalistas deste País. Assim, os leitores do Arquibancada não precisam perder muito tempo navegando para achá-lo. É só clicar no link dos recomendados, à sua direita na tela. Juca traz sempre ótimas informações dos bastidores do futebol, principalmente do eixo Rio-São Paulo.
E também já oferecemos blogs específicos dos clubes, além do Blog do Santinha, de Inácio, e do PaixãopeloSport (aquele abraço, Pedro Jorge!).
Em tempo, para quem gosta de economia e política, é só acertar as contas com Marco Bahé, do blog Acerto de Contas.
Também não poderia esquecer de Antônio Falcão e Giba Carvalheira. Mas esses já fazem parte da comissão técnica.
Segunda, 5 de Março de 2007, 06:51 AM
Por Washington Olivetto
O futebol-paixão extrapola todas as fronteiras, contamina sociologia, ciência, política, antropologia, e a bola acaba fazendo História com H maiúsculo.
Se você voltar o filme, vai reparar: início dos anos 80, o Brasil começa a mudar. E no início de tudo está o Corinthians.
Recapitulando: ditadura militar desde 1964, prisões arbitrárias, censura à imprensa, todo mundo de bico calado.
De repente, um ensaio de abertura e o regime anuncia uma anistia. Os exilados vão voltando, o Gabeira vai de sunga ao píer de Ipanema, Caetano fica Odara e Glauber Rocha assiste a filmes com o general Golbery no Palácio do Planalto. A oposição reorganiza seus partidos.
E no futebol? No futebol nasce a Democracia Corintiana de um acaso feliz: a súbita e inesperada reação química que se produziu quando se juntaram no mesmo time cabeças privilegiadas e espíritos insubmissos. E felizmente a coisa não ficou só no papo acadêmico.
A Democracia Corintiana foi também um futebol de resultados. Enquanto durou esse movimento sociopolítico-esportivo, a gente foi feliz e sabia.
Os acasos convergentes começaram com a chegada do Dr. Sócrates, de Ribeirão Preto, somando-se ao garotão Casagrande, que a torcida consagrou como Casão, Wladimir com sua autoridade macia e serena, Zenon, Biro-Biro, Juninho, Alfinete.
As coisas foram acontecendo naturalmente.
Uma geração que tratava com intimidade a bola, mas que sabia ser madura fora do campo.
O que aconteceu no Corinthians foi o estopim de um processo de redemocratização do país.
Enquanto liberdade era um grito dado em salões acadêmicos, os militares não se tocavam. Mas imagine aquela galera toda aplaudindo um time de massa que entra em campo com "Democracia" estampada na camisa.
A CBF tinha acabado de autorizar anúncios nas camisas (até então proibidos), e o Corinthians decidiu anunciar o produto que andava mais em falta no Brasil.
Era o pontapé inicial na mobilização. Depois foi aquele turbilhão das Diretas Já. Palanques de milhões de pessoas clamando para votar em presidente, quando o presidente da época ainda era um general.
Em novembro de 1982, às vésperas da eleição para governador, o Corinthians entrava em campo com uma única inscrição na camisa: "No dia 15, vote".
Votar tinha deixado de ser um hábito e ainda não era uma coisa muito bem-vinda por alguns. Mas começou a ser.
A Democracia Corintiana venceu os dois campeonatos paulistas que disputou: o de 82 e o de 83.
Em 1983, na noite do bicampeonato, antes de começar a partida, Sócrates, Casagrande, Wladimir, o time todo abriu uma faixa de dez metros de comprimento: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia".
E, a partir desse dia, o Brasil nunca mais foi o mesmo.
Felizmente.
Publicado na Revista Ocas, novembro de 2002.
Nota do autor
Se analisarmos só o futebol, naquele início dos anos 80 o Corinthians tinha realmente uma grande equipe, mas o Flamengo de Zico, Adílio, Carpeggiani, Júnior e Leandro tinha uma equipe ainda melhor, que ganhou praticamente tudo que disputou, enquanto o Corinthians foi apenas bicampeão paulista.
Só que hoje, passados mais de 20 anos, quem virou história, filme, documentário, livro, retrospectiva e tese acadêmica foi a Democracia Corintiana, porque era futebol, mas não era só futebol. Coisa que o texto escrito por mim deveria ter observado, mas não observou.
Esse artigo faz parte do livro Os Piores Textos de Washington Olivetto, Editora Planeta.
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